
Do sexo sem pudor ao cinema sem desejo: o que mudou entre os filmes de antigamente e os de hoje?
O cinema sempre funcionou como um espelho da sociedade. Só que, quando a gente compara o Brasil dos anos 1970, no auge do famoso Cinema da Boca do Lixo, com o que assistimos hoje nos cinemas e no streaming, percebemos uma virada impressionante. O conservadorismo do passado tentava proibir a liberdade na base da força, usando a censura da ditadura militar. Já o conservadorismo de hoje funciona de um jeito bem mais silencioso: ele não usa violência, mas deixa tudo tão comportado, limpinho e "correto" que a paixão e o desejo simplesmente desapareceram da tela.
Para entender essa diferença, vale a pena olhar para o que era o Brasil das décadas de 1960 e 1970. O governo militar tentava controlar a vida das pessoas em nome da "família e dos bons costumes". Existiam censores que cortavam cenas, proibiam roteiros e perseguiam diretores. Mas, em vez de se calarem, os cineastas que trabalhavam no centro de São Paulo, na região da Boca do Lixo, decidiram responder colocando o corpo e o sexo no centro de tudo.
Eles não faziam isso apenas por sacanagem ou para vender ingressos, embora o dinheiro também fosse importante. Usar o erotismo era uma forma debochada de desafiar a hipocrisia da época. Filmes como O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, ou A Margem (1967), de Ozualdo Candeias, mostravam a vida como ela era: feia, confusa, cheia de desejo e sem o verniz de "família perfeita" que os censores queriam impor. Logo depois, veio o estouro da Pornochanchada, com produções como A Ilha dos Prazeres Proibidos (1979) ou as comédias populares de David Cardoso. O sexo ali era cômico, barulhento, imperfeito e muito humano.
Hoje, a história é bem diferente. Não existem mais fiscais do governo dizendo o que pode ou não ser filmado. No entanto, a indústria de hoje, controlada por grandes plataformas de streaming e estúdios focados no mercado global, criou o seu próprio tipo de puritanismo. Para evitar qualquer polêmica que possa irritar patrocinadores, afastar o público ou gerar cancelamento nas redes sociais, as cenas de sexo passaram a serem questionadas, se eram necessárias para a narrativa. Caso contrário, eram incômodas e desnecessárias.
A comparação é evidente. Enquanto o cinema da Boca do Lixo usava o sexo para chocar, fazer piada com a sociedade além de reforçar o quanto o desejo sexual é natural e humano, as produções de hoje tratam a intimidade com uma distância quase fria. Nas comédias de grande público que vemos no cinema atualmente ou nas séries jovens mais populares do streaming, o romance até existe, mas é tudo muito asséptico. Quando alguém aparece sem camisa, o corpo parece esculpido em uma academia, perfeito e sem nenhuma imperfeição real. As cenas são rápidas, funcionais e sem graça. O conservadorismo antigo tinha medo de que o sexo na tela "estragasse as pessoas"; o mercado de hoje evita o sexo simplesmente porque acha que ele dá trabalho e não dá tanto lucro.
É exatamente por isso que a experiência da Boca do Lixo continua sendo tão importante. Celebrar o Cinema da Boca do Lixo é reconhecer a coragem de uma geração que provou ser possível fazer um cinema nacional autêntico, popular e rentável sem pedir licença à moral vigente. Contudo, olhar para aquela audácia inevitavelmente nos obriga a encarar o presente com certo incômodo. Se no auge de um regime autoritário os nossos cineastas encontravam fôlego para peitar a censura e filmar o corpo em toda a sua imperfeição, por que hoje, em plena liberdade democrática, aceitamos tão facilmente um audiovisual medroso e “censurado” pelos filtros do mercado?